Rota do Vinho Goethe: uma viagem pelo vinho único, típico e raro
Orleans, Urussanga, Nova Veneza, Içara, Santa Catarina
Entre vinhedos, montanhas, sabores e histórias de família, a uva Goethe conduz uma viagem pelo Sul de Santa Catarina — um território onde vinho e identidade caminham juntos.
uma viagem pelo vinho único, típico e raro
Nos Vales da Uva Goethe, no Sul de Santa Catarina, o caminho passa por estradas rurais, pequenas propriedades, vinhedos, casarões, igrejas e comunidades que preservam marcas da imigração italiana e de uma tradição vitivinícola construída ao longo de gerações. Entre a serra e o mar, sabores, paisagens e histórias de família fazem da Goethe o fio condutor para descobrir um território onde identidade e autenticidade também se transformam em experiência turística.
Cultivada na região há mais de 140 anos, a uva Goethe tornou-se um dos símbolos desse território, que em 2012 conquistou a Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência (IP). Em 2025, o vinho Goethe produzido com essa variedade recebeu a Denominação de Origem (DO), certificação que valoriza as características da variedade, as condições naturais da área delimitada e os conhecimentos desenvolvidos pelos produtores.
Percorrer as paisagens, conversar com quem mantém essa tradição viva e provar diferentes interpretações da variedade é também descobrir como uma única uva pode revelar tantas histórias.
O roteiro passa por quatro municípios e combina degustações, gastronomia, hospedagem, natureza, arquitetura e cultura. Para quem pretende fazer a viagem de carro, a sequência Orleans → Urussanga → Nova Veneza → Içara organiza o percurso de forma natural: começa na paisagem serrana, concentra as principais experiências em Urussanga, amplia o olhar para a cultura italiana em Nova Veneza e termina em Içara, com uma história de tradição familiar.
ORLEANS — A paisagem da serra
Para quem chega pela região Norte, Orleans funciona como uma boa porta de entrada para os Vales da Uva Goethe. A cidade marca a transição entre a serra e as áreas de cultivo, e o trajeto até a primeira vinícola já faz parte da experiência.
A paisagem muda aos poucos. A serra aparece no horizonte, as estradas atravessam pequenas comunidades e os primeiros vinhedos anunciam que a viagem começou.
A parada inicial é a Vinícola Bianco, entre vinhedos e montanhas. A visita guiada apresenta a produção e termina com uma degustação, criando um primeiro contato com a Goethe e com a tradição vitivinícola regional.
É uma etapa breve, mas importante para entrar no clima do roteiro. Orleans introduz o visitante à paisagem dos Vales e prepara o caminho para Urussanga, onde a presença da variedade se torna mais evidente.
URUSSANGA — O coração da Goethe
De Orleans, o percurso segue para Urussanga, o trecho que concentra o maior número de experiências da rota. Por isso, vale reservar pelo menos um dia inteiro para a cidade — ou até mesmo uma noite de hospedagem.
Entre vinícolas, parreirais, gastronomia, natureza e espaços de acolhimento, Urussanga permite conhecer diferentes formas de produzir e apresentar a Goethe.
A Pousada Vale dos Figos é uma das opções para quem deseja desacelerar. A propriedade tem 70 hectares de natureza, com parreirais, pomar e cachoeira. Foi nesse cenário que nasceu o Alma di Goethe, vinho que traduz a relação da família com a terra. A hospedagem permite estender a visita e aproveitar a paisagem com mais calma.
Na Vinhos Trevisol, mais de um século de história atravessa gerações. A visita apresenta os espaços de produção e os vinhos elaborados pela família. Dependendo da programação, também é possível conhecer o museu e participar de um piquenique diante do açude, com produtos locais, vinho e suco de uva.
A Vigna Mazon também convida a permanecer. Degustações orientadas, vinhos servidos entre os vinhedos, experiências enogastronômicas, menus harmonizados e hospedagem fazem da propriedade uma parada que pode ocupar boa parte do dia.
Na Vinícola Damian, a trajetória da família se mistura à história da vitivinicultura regional. A visita apresenta a produção e a relação com a Goethe, além de possibilitar a degustação de diferentes rótulos, entre vinhos tranquilos e espumantes.
Já na Vinícola De Noni, o encontro é mais intimista. A história da família, iniciada na produção de vinhos na década de 1980 e consolidada com a criação da vinícola em 2004, está presente nos rótulos e no acolhimento aos visitantes. A visita pode incluir a degustação dos produtos na loja.
As cinco propriedades oferecem experiências diferentes, mas têm um ponto em comum: mostram como a mesma uva pode ganhar interpretações próprias de acordo com a família, a paisagem e o modo de produção.
Em Urussanga, a Goethe aparece ligada à gastronomia, à hospedagem, à natureza e às memórias de quem ajudou a preservar a variedade. É o trecho mais indicado para aprofundar a relação com o vinho e entender por que a cidade é considerada o coração da rota.
NOVA VENEZA — Vinho, cultura e gastronomia italiana
Depois de Urussanga, o roteiro segue para Nova Veneza, em um deslocamento que amplia a experiência para além dos vinhedos.
A parada é a Vinícola Borgo, instalada em um castelo. A arquitetura cria um cenário diferente das propriedades visitadas anteriormente e combina vinho, hospitalidade e referências à herança italiana da região.
A visita à vinícola pode ser integrada a um passeio pela cidade. Nova Veneza reúne gastronomia, arquitetura e manifestações culturais ligadas à imigração italiana. O Carnevale di Venezia e a gôndola instalada na praça central são algumas das referências que ajudam a contar essa história.
Por isso, vale reservar tempo para uma refeição e para caminhar pelo centro antes ou depois da degustação.
Depois da concentração de vinícolas em Urussanga, Nova Veneza muda o ritmo da viagem. Aqui, o vinho passa a dialogar de forma mais evidente com a cultura, a arquitetura e a gastronomia.
A Goethe continua sendo o elo, mas o visitante já consegue enxergar o território por uma perspectiva mais ampla.
IÇARA — Tradição familiar que permanece
O percurso termina em Içara, na Vinícola Quarezemin. A escolha fecha a viagem com uma história diretamente ligada às primeiras gerações de produtores da Goethe no Sul de Santa Catarina.
A trajetória da família remonta ao final do século XIX, quando imigrantes italianos começaram a cultivar uva e produzir vinho na região. Fundada em 2002, a vinícola mantém uma produção artesanal, com uvas selecionadas e colhidas manualmente e vinhos elaborados em pequenas quantidades.
A cantina construída em pedra reforça a herança italiana e cria um ambiente em que vinho, memória e paisagem se encontram.
Içara encerra o roteiro com uma questão que acompanha toda a viagem: como uma variedade conseguiu permanecer por mais de um século em uma região?
A resposta está nos vinhedos, mas também nos conhecimentos transmitidos entre gerações, nos gestos repetidos a cada safra e na decisão de continuar produzindo mesmo quando a variedade enfrentou períodos de menor valorização.
É essa permanência que ajuda a explicar a força da Goethe hoje.
Uma mesma uva, diferentes histórias
Percorrer a Rota do Vinho Goethe é descobrir como cada lugar interpreta uma mesma variedade.
Em um território relativamente pequeno, características de solo, relevo, clima e práticas de cultivo contribuem para diferentes expressões da Goethe. O resultado aparece em vinhos com personalidades próprias, unidos por uma origem comum.
Essa diversidade é uma das riquezas do roteiro. Em Orleans, a paisagem serrana introduz a viagem. Em Urussanga, a variedade aparece em sua maior concentração de experiências. Em Nova Veneza, o vinho se aproxima da arquitetura e da cultura italiana. Em Içara, a tradição familiar mostra como a Goethe atravessou o tempo.
O território também está na taça
Os Vales da Uva Goethe ocupam uma posição singular entre a encosta da Serra Geral e o litoral catarinense. A influência marítima, a circulação dos ventos e as características climáticas do território participam das condições em que a variedade é cultivada.
Na taça, a Goethe pode apresentar aromas e sabores de frutas brancas e amarelas, notas tropicais e nuances minerais. São vinhos marcados pelo frescor e pela versatilidade à mesa, capazes de acompanhar diferentes preparos e valorizar a gastronomia local.
Mas talvez a característica mais interessante não esteja apenas na ficha técnica.
Está na história.
Introduzida no Sul do Brasil pelos imigrantes italianos, a Goethe ganhou espaço entre os produtores locais, atravessou períodos de retração e voltou a se fortalecer como símbolo da vitivinicultura regional.
Hoje, cultivada em aproximadamente 55 hectares, a variedade é reconhecida como patrimônio imaterial do território e integra a Arca do Gosto, do movimento Slow Food.
Sua permanência está diretamente ligada ao trabalho das famílias que preservaram os vinhedos, os conhecimentos e uma maneira particular de se relacionar com a terra.
Como fazer a rota
A sequência Orleans → Urussanga → Nova Veneza → Içara funciona melhor de carro e pode ser percorrida em um fim de semana, desde que o viajante selecione algumas experiências.
Para conhecer as vinícolas com calma, combinar degustações com refeições e incluir uma hospedagem entre os vinhedos, o ideal é reservar mais tempo. Urussanga merece pelo menos uma noite, já que concentra cinco propriedades e oferece as maiores possibilidades de permanência.
Também é importante organizar as visitas antes de sair. Algumas experiências funcionam mediante agendamento prévio, especialmente aquelas que envolvem degustações orientadas, refeições, piqueniques ou hospedagem.
O roteiro pode começar por Orleans pela manhã, seguir para Urussanga e concentrar ali o primeiro dia. No dia seguinte, o viajante pode continuar até Nova Veneza e encerrar o percurso em Içara. Outra possibilidade é dormir em Urussanga e dividir as visitas da cidade em dois períodos, evitando transformar a viagem em uma sequência apressada de degustações.
A Rota do Vinho Goethe não combina com pressa. Reserve tempo para caminhar entre os parreirais, conversar com quem produz, conhecer as cidades e observar a paisagem pela janela.
Nos Vales da Uva Goethe, o vinho não é o ponto final.
É o caminho para descobrir um território inteiro.
E, em cada taça, há uma origem, uma paisagem e uma história — a história de um vinho único, típico e raro, que encontrou no Sul de Santa Catarina um lugar para permanecer.
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